“Computadores de Harvard” era o nome dado ao grupo de mulheres que trabalhava no Observatório de Harvard, na virada do século XIX para o XX. Contratadas pelo diretor do observatório, Edward Charles Pickering, elas ajudaram a catalogar e analisar milhares de chapas fotográficas do céu noturno. Trabalhavam seis dias por semana e recebiam entre 25 e 50 cents por hora. O grupo também era chamado, vergonhosamente, de “O Harém de Pickering”.
Tudo começou com uma frase que, de início, me soa bastante preconceituosa: “Até minha empregada poderia fazer um trabalho melhor”. A empregada de Pickering, Williamina Fleming, foi a primeira dessas mulheres a ser contratada. Ela havia sido professora antes de se tornar empregada doméstica. Fleming fez importantes contribuições à Astronomia, entre elas a descoberta da famosa Nebulosa Cabeça de Cavalo e o desenvolvimento de métodos para classificar estrelas a partir de seus espectros.

O legado físico dessas mulheres permanece até hoje no Observatório de Harvard: mais de 550 mil chapas fotográficas de vidro, muitas delas ainda preservando anotações, marcações e registros feitos durante o trabalho astronômico. A coleção inclui também registros espectroscópicos obtidos com prismas e redes de difração (diffraction gratings).
Outra dessas mulheres foi Henrietta Swan Leavitt. Ela descobriu a relação entre o período de variação e a luminosidade das estrelas Cefeidas, estabelecendo uma ferramenta fundamental para medir distâncias astronômicas. Seu trabalho seria posteriormente utilizado por Edwin Hubble para determinar a distância de outras galáxias.

Annie Jump Cannon, que tinha deficiência auditiva e era uma defensora do sufrágio feminino, juntou-se ao grupo em 1896. Diferentemente de muitas das suas colegas, possuía formação em Física e Astronomia, tendo estudado em Wellesley e Radcliffe. Manualmente, classificou cerca de 350 mil estrelas ao longo da vida

A britânica Cecilia Payne também se juntou a elas. Em seu trabalho sobre atmosferas estelares, demonstrou que as estrelas são compostas predominantemente por hidrogênio e hélio — uma conclusão que contrariava o pensamento científico predominante na época. Inicialmente desacreditada, sua descoberta seria posteriormente reconhecida como fundamental para a compreensão da composição das estrelas.

Ironicamente, suas contribuições à Astronomia e à Astrofísica são incalculáveis, enquanto seu trabalho era remunerado em apenas 25 a 50 cents por hora.
Um brinde às tantas outras mulheres brilhantes, que lutam pelo seu espaço no universo científico e em todos os outros!